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Sessão Arquitetura Acessível: A Influência de Ambientes no Dia a Dia de Autistas

Há muito tempo existem diversos estudos sobre a influência que cores e espaços têm sobre os humanos. Mas através da pandemia, conforme passamos mais tempo em casa, temos a certeza do quanto isso é verdade.

Na arquitetura e urbanismo e no design de interiores sempre foi preciso que se pensasse no desenho para o cliente em específico. Isso se dá porque o ambiente precisa servir ao usuário sem que este não precise se adaptar a ele.

Este assunto está muito ligado principalmente ao Desenho Universal, assunto da nossa última Sessão de Arquitetura Acessível, se você não viu, clica AQUI! Então a partir disso, já é sabido que ambiente direcionado às crianças precisa ser projetado com tamanhos ideais para crianças e espaço para adultos, com tamanhos ideais para adultos. Mas além disso, as cores precisam ser escolhidas de acordo com as intenções de cada espaço. 

Portanto, esses aspectos devem ser considerados também, com ainda mais estudos, em ambientes para pessoas que possuem algum transtorno, como é o exemplo do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

CONTEXTUALIZAÇÃO – TRANSTORNO ESPECTRO AUTISTA (TEA)

Acredita-se que o transtorno representa um conjunto de síndromes. Essas síndromes afetam diretamente na comunicação e em suas habilidades (GAUDERER, 1993) e se manifestam de diferentes formas: podem falar sozinhas por muito tempo e não manter nenhum diálogo; podem ser insensíveis à dor; cinco sentidos muito aguçados; e entre outros sinais (MORAIS, 2012). É importante frisar, no entanto, que estes sinais não se manifestam obrigatoriamente em todos os autistas.

Já falamos no instagram do Busca Especial sobre a importância do diagnóstico precoce do TEA. Se você ainda não viu, por favor, clique AQUI!  E se ainda não segue a gente, aproveita e já siga! 😉

Através do diagnóstico precoce, os tratamentos podem ter resultados mais positivos e ajudar no desenvolvimento da criança. A escola também tem um grande papel no desenvolvimento da criança e não é diferente para com as crianças autistas. Entretanto, são poucas as escolas que se encontram preparadas atualmente para receber adequadamente este público.

Como mencionado anteriormente, devido aos 5 sentidos aguçados, é necessário que os ambientes sejam projetados considerando maneiras que venham a ajudar no dia a dia dos autistas. E se você sente que o seu lar está precisando ser adaptado, ao fim deste artigo separamos algumas dicas que podem ser colocadas em prática para melhorar o desenvolvimento do autista dentro de casa.

  • ACÚSTICA IDEAL

Para que a audição seja protegida, é preciso que a acústica dos ambientes sejam tratadas com atenção visando o mínimo de ruídos internos, externos, eco e reverberação (VERGARA, TRONCOSO, RODRIGUES, 2018).

Os materiais mais indicados para isolamento acústico interno são a madeira, cortiças e pisos emborrachados. Para o isolamento acústico externo, recomenda-se “o uso de paredes em alvenaria com uso de argamassa termoacústica ou divisórias duplas, com preenchimento interno para o isolamento acústico (LAUREANO, 2017).” (NAYADE, 2020).

  • ILUMINAÇÃO IDEAL

Os tipos de iluminação mais adequados para quem possui hipersensibilidade à luz são as lâmpadas halógenas, incandescentes e de LED, além da iluminação natural, é claro.

  • CONFORTO TÉRMICO IDEAL

É preciso priorizar a ventilação natural da edificação, entretanto, caso isso não seja possível, existe a possibilidade de se resolver com a ventilação artificial, entretanto o mais indicado seria o uso de eletrônico silencioso, como o ar condicionado.

  • DECORAÇÃO IDEAL

A posição dos móveis nos ambientes precisa estar de uma forma que não funcione como obstáculo e que possa permitir a movimentação do autista de forma independente. Conforme dito anteriormente, cada ambiente possui uma função e objetivo, e cada um deve ser decorado de forma a atingir este objetivo. 

Em conjunto com os móveis, as cores também possuem um papel muito importante na decoração. De acordo com o projeto, os ambientes podem acabar trazendo sensações para os usuários. Essas sensações variam de estresse à calmaria, felicidade, tristeza e a intenção é que os ambientes projetados para autistas sejam o mais calmo e simples possíveis.

As cores a serem evitadas de forma excessiva são as cores consideradas mais vibrantes e estimulantes (EVONLINE, 2015), como: vermelho, amarelo e laranja.

DICAS DE ADAPTAÇÃO

É importante saber que um Terapeuta Ocupacional especializado em Integração Sensorial vai poder te ajudar analisando o espaço que você já possui para que ele possa ser adaptado da melhor forma a partir da análise do que mais incomoda o paciente. Porém, vamos pontuar algumas medidas simples que podem ser tomadas, encontradas no blog Inspirados pelo Autismo, além das já mencionadas, e que já podem ajudar significativamente.

  1. Simplifique: os autistas são facilmente distraídos, portanto é importante que os estímulos sejam simplificados, limite a quantidade de sons, cheiros, texturas e sensações; em um ambiente em que ele(a) passe a maior parte do tempo, considere setorizar as áreas em que se deseja passar cada tipo de sensação.
  1. Paredes Limpas: evite usar quadros ou cartazes que não estejam atrelados às atividades que serão realizadas; prateleiras podem ajudar muito a armazenar objetos, e assim se pode ter um ambiente mais livre, sem obstáculos; 
  1. Móveis Úteis e Duradouros: é importante que se mantenha no quarto apenas o que for funcional e caso exista algum espaço a ser preenchido, este pode ser usado para abrigar equipamentos que venham a ajudar no desenvolvimento do autista, como: bolas de fisioterapia, rede ou balanço, mesa para atividades e interação.
  1. Espelhos: o espelho pode ser um grande aliado no desenvolvimento, este permite que o autista tenha maior consciência corporal; é importante observar a reação dele em relação ao objeto.
  1. Quadros de Rotina: com a visão clara do que será feito no dia ou na semana, a pessoa pode se sentir mais segura com a atividade que está por vir; considere representar as atividades com fotos ou desenhos, além da escrita.

Por mais que nesses tempos de pandemia e quarentena todos nós tivemos que nos adaptar, é importante frisar que nenhuma dessas adaptações substituem o tratamento e as terapias das quais a pessoa que possui TEA necessita. Por isso, é importante não suspender as terapias, mas procurar fazê-las de maneira mais segura e com constância, mesmo que à distância.

E essa foi mais uma Sessão Arquitetura Acessível do Busca Especial!

Agradecemos que você nos tenha acompanhado até aqui e esperamos que tenha gostado e que tenha ajudado! Se você conhece alguém que goste do assunto ou que este artigo possa vir a ajudar, compartilhe! 😀

*Para ajudar na elaboração deste artigo, foi utilizado o trabalho de conclusão de curso de Arquitetura e Urbanismo de Brunna Nayade que teve como tema um Anteprojeto Arquitetônico de Creche Pública Inclusiva para Crianças com Transtorno do Espectro Austista, em Boa Viagem, Recife/PE.

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Autismo e a escola: a importância da educação inclusiva

O Autismo é um assunto que o Busca Especial tem muito carinho, destacando  a necessidade e a importância de ser comentado e debatido. Como o dia 02 de abril é o Dia Mundial de Conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), tanto nas nossas redes sociais quanto aqui no blog escolhemos abordar alguns temas relacionados ao assunto.

Neste post serão os seguintes pontos:

  • O que é o autismo?
  • Autismo e o contexto escolar
  • O que é uma educação inclusiva?
  • Parceria Família e Escola
  • Aprendizado pedagógico e autismo

O que é o autismo?

“O Transtorno de Espectro Autista (TEA) se caracteriza por dificuldades de comunicação e interação social e a presença de comportamentos neurotípicos como ações repetitivas ou restritas. Entretanto, esses traços, apesar de serem percebidos, possuem gravidade variável.”

Publicação Busca Especial

Justamente por essa variedade de comportamentos, foi adotado o termo espectro. Então, como todos nós que temos nossa singularidade, pessoas que estão diagnosticadas dentro do espectro não podem ser rotuladas, mas devem ser compreendidas e respeitadas em suas individualidades.

Autismo no contexto escolar

As atividades realizadas na primeira infância são de grande importância para o desenvolvimento da criança. Na fase escolar, o aprendizado fica ainda mais intenso. Para alguns alunos que estão no espectro o desafio pode ser ainda maior pelas dificuldades comportamentais, de comunicação e socialização.

No artigo do Instituto NeuroSaber sobre o desafio da inclusão do autismo no âmbito escolar, é levantado o ponto da individualidade de cada criança no qual o professor e toda a equipe só vão entender quais são as melhores abordagens durante a rotina escolar e com a prática pedagógica.

O que é uma educação inclusiva?

Educação inclusiva é o real esforço para a adaptação do ambiente escolar de acordo com as necessidades de cada aluno, para que assim seja garantido, além do aprendizado, o cumprimento do que está presente na lei e reforçado na Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

“As pessoas com deficiência recebam o apoio necessário, no âmbito do sistema educacional geral, com vistas a facilitar sua efetiva educação;”

Art. 24, 2, alínea d, do Decreto n° 6.949, de 25 de agosto de 2009

Esse apoio necessário, pode incluir a presença de um acompanhante ou cuidador escolar que ficará responsável por acompanhar o aluno com mais exclusividade, atividade que o professor não consegue fazer em uma sala com vários alunos. Apesar de ser garantido por lei, na prática, nem sempre acontece como alguns relatos que coletamos de familiares.

“A Escola é um novo meio para a criança. Além do ensino, a socialização tem um papel preponderante. O tempo que Kênio frequentou a escola foi muito significativo, posto que pôde conviver com diferenças tanto em termos de pessoas como de estrutura física dos lugares. No entanto, é importante ressaltar que, embora, muitos estudos tenham avançado daquela época (anos 1990 e anos 2000), ainda percebemos a dificuldade dos profissionais, dos alunos e até mesmo pais,  em relação ao trato, ensino e convivência”.

Ivalda Marinho, mãe de Kênio e psicóloga.

Parceria Família e Escola

“É importantíssima essa união entre escola, pais e o profissional que acompanha essa criança. Ao meu ver, é um trabalho multidisciplinar, sempre vai precisar um do outro, porque o que a criança aprende em casa, vai pra escola, o que a criança aprende na escola chega em casa.”

Aldair José, tio de Lucas e estudante de psicologia.

A família de Lucas (5 anos), que é apaixonado pelo ambiente escolar, ressalta a diferença que esse convívio proporciona ao aprendizado e desenvolvimento da criança. Não existe um lugar que esteja totalmente preparado para receber o aluno, mas apenas através de uma construção de forma gradativa, por meio de momentos de troca entre família, escola e equipe terapêutica. Além de um lugar de acolhimento e desenvolvimento para a criança, a escola também é um canal para difundir informação e diluir o preconceito.

Aprendizado pedagógico e autismo

No ambiente escolar, os alunos estão o tempo todo intencionalmente expostos aos estímulos adequados, de acordo com o planejamento pedagógico estabelecido. Tais estímulos são recebidos de formas diferentes por cada aluno. Para as crianças que estão dentro do espectro, a possibilidade de distração faz com que o aluno não obtenha a resposta desejada nas atividades propostas. O que pode ser um fator que diferencie ainda mais o ritmo de aprendizagem comparativo entre os colegas de sala.

Aqui citamos algumas abordagens que são voltadas para o desenvolvimento:

D.I.R.®/ Floortime™ – Segue os interesses da criança ao mesmo tempo em que a desafia a alcançar maior domínio das capacidades sociais, emocionais e intelectuais.

ABA – Trabalha no reforço dos comportamentos positivos.

Son-Rise Program® (SRP) – Privilegia a relação em detrimento do tratamento.

“Toda criança traz consigo o potencial para ser uma ótima criança. O nosso trabalho é criar um ambiente onde esse potencial possa expandir.”

Dr. Stanley Greenspan

Com essa provocação do Dr. Stanley Greenspan, psiquiatra e um dos criadores do método D.I.R.®/ Floortime™, ficamos com o questionamento: 

O que podemos fazer para criar o melhor ambiente para as crianças ao nosso redor, e, em especial, para todos que estão dentro do espectro.

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